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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Grupo ucraniano de mulheres organiza protestos exibindo os seios

Já vai longe o tempo em que queimar sutiã em praça pública era sinal de transgressão. Para algumas rebeldes de hoje, sutiã se tornou praticamente peça de museu. Sem o menor pudor, elas costumam exibir os seios em praça pública. Para protestar, que seja bem dito. As Leilas Diniz do Leste Europeu atendem pelo nome de Femen. Baseado em Kiev, na Ucrânia, o grupo criado em 2008 por Anna Hutsol tem um exército de mais de 300 desinibidas, a maioria entre 18 e 20 anos. Nem o inverno rigoroso da ex-república soviética é capaz de frear o ímpeto das jovens seminuas, que lutam de peito aberto contra a discriminação, a indústria do sexo e o turismo sexual.
- Desde criança, percebo que há algo errado com o meu país. A minha mãe trabalha 12 horas por dia, e o meu pai, só cinco. E ele tem mais dinheiro do que ela. Não posso aceitar isso - diz Inna Shevchenko, uma articulada loura de 20 anos, um dos rostos, e seios (naturais, como ela faz questão de enfatizar), mais conhecidos do Femen. - Conheci Anna, entre outras meninas, e ela decidiu organizar um movimento. Topei na hora.
Confira a fotogaleria com imagens de protestos do grupo A moça, que conversou com a Revista O GLOBO por telefone de sua casa, em Kiev, emenda:
- Queremos chacoalhar as mulheres, fazê-las lutar por seus direitos.
Estudante de Jornalismo, Inna luta pelos direitos de mulheres vítimas do "machismo típico de uma ex-república soviética", como a própria mãe. Mas seu trabalho como ativista não é muito bem visto em casa.
- Sempre fui boa aluna e tirava excelentes notas. E ainda tinha um bom emprego. Minha mãe tinha orgulho - conta. - Mas agora ela não entende por que a filha fica mostrando os seios por aí, como ela costuma dizer. Ela se diz chocada.
Inna trabalhava na assessoria de imprensa da Prefeitura de Kiev. Entretanto, num protesto do Femen perto do gabinete do prefeito em 2009, a jovem acabou presa e demitida. Foi quando, diz ela, ser ativista se tornou a sua "única profissão":
- Fotos da manifestação foram parar na internet e, no dia seguinte, quando fui trabalhar, mostraram-me as imagens e disseram que eu não tinha mais emprego. Protestar ainda é algo estranho na Ucrânia. Ainda mais quando é um protesto do tipo que fazemos.
'Não há nada errado em mostrar os seios na rua'
Para um pedestre desavisado, uma manifestação do Femen pode ser facilmente confundida com outra coisa. Mas as diretrizes do grupo são claras: "Desenvolver qualidades de liderança, intelectuais e morais nas jovens ucranianas." A organização costuma declarar oposição à indústria sexual, que tem crescimento acelerado no país desde a queda do comunismo, há 20 anos.
- Não há nada errado em mostrar os seios na rua - comenta Inna. - Temos o direito de protestar usando o cérebro e outras partes do corpo. A ativista ideal do Femen é a mulher que tem a coragem de mostrar o corpo e gritar. Esta é a única forma que temos para lutar. Não temos dinheiro, não temos poder ou pessoas influentes que possam nos ajudar. Eu mostro os seios para chocar as pessoas, para chamar a atenção delas. Não precisamos nos vestir como homens para protestar. Somos mulheres! E podemos ser bonitas e sexies mesmo brigando por nossos direitos.
" Estaremos em breve em todo o mundo. Não tenho dúvida "

O Femen é mais do que um grupo de belas mulheres protestando de forma ousada - algumas delas tiram até as calças. As ativistas têm ambições políticas e vão lutar por cadeiras nas próximas eleições parlamentares na Ucrânia. O principal alvo delas é o presidente ucraniano, Viktor Yanukovych. Mas, ultimamente, as ativistas passaram a mirar em alvos estrangeiros. Sobraram seios para o egípcio Hosni Mubarak, que acabou renunciando, para o italiano Berlusconi, envolvido em escândalo sexual, e até para a Uefa, que proibiu os moradores de Kiev de aparecerem seminus nas varandas durante a Eurocopa de futebol em 2012, que terá jogos na Ucrânia.
A Ucrânia está se tornando pequena demais para as pretensões das desinibidas de Kiev. Elas já cruzaram a fronteira e desembarcaram em Varsóvia, capital da Polônia, onde fizeram o habitual: seios desnudos e gritos pelos direitos das mulheres.
- Com financiamento e uma boa causa, aceitamos convites de qualquer país. Sonhamos em poder ir ao Brasil, onde sei que há problemas sérios com turismo sexual - diz Inna. - Todas as mulheres do Brasil e de outros países podem se tornar uma Femen e lutar da mesma forma.